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Ela só precisava de menos

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Fazia tempo que ela se sentia vazia, como se houvesse um buraco no peito, mas nunca reparou em nada diferente. Vestia-se e nada se ajeitava, faltava alguma coisa, sempre faltava. Um dia ela olhou-se no espelho, como há muito não fazia, e percebeu  que realmente algo estava errado e que não era só a impressão, o buraco estava ali visível, mas só ela via.

Tentou preencher de todas as maneiras, afinal ninguém pode viver com o nada no peito. Primeiro encheu de sapatos, de todas as cores, de todos os formatos, altos, baixos, coloridos, pretos e brancos. No dia preencheram, foi suficiente e ela ficou satisfeita com o resultado. No outro, lá estava o buraco de novo, a atormentar.

Então, ela tentou com livros, empilhou vários, pilhas enormes como arranha-céus, alguns eram empoeirados e causavam coceira no nariz, outros novos com cheiro de cola, papel e tinta que ela nem chegou a abrir. Colocou tantos livros no buraco que quase sufocou. Pronto, agora ela achava que havia encontrado a solução, era isso que faltava ali. Como ela era ingênua e acreditava tão fácil.

Por hora os sapatos e livros, com poeira ou sem, com cor ou não, fizeram ela se sentir bem, inteira novamente. Mas um dia ela dormiu e acordou diferente, com um vazio. E lá estava ele de novo a atormentar. “Mas que diabos! O que faço com você agora?”

Procurou um velho sábio, que na verdade não era sábio e nem velho, mas que disse que ela precisava de menos. Menos. Não fez sentido, nenhum sentido. Na hora não!

Voltou a tentar preenche-lo. Buscou a música, trilhas e trilhas por onde andava a música a acompanhava. Mas, também não resolveu. Correu para os filmes: assistia tantos que nem ela sabia quando era realidade ou fantasia

O buraco já estava abarrotado de notas musicais, de películas, de livros, de sapatos, de cachorros, de chocolates, de tulipas, de tudo que a fazia sorrir por um milésimo de segundo. Mas, quanto mais ela colocava, mais o buraco crescia. Quanto mais ela buscava, mais distante da solução ficava.

Aí ela cansou, cansou de tentar, cansou de buscar e se deixou definhar. O vazio era tão absurdo que se tornou um abismo convidativo para pular. E foi o que fez. Tampou o nariz e mergulhou na escuridão. Se perdeu entre tanta tranqueira. Chorou, chorou e chorou. Rios de lágrimas se formaram dentro do abismo dela mesma.

Em suas andanças dentro do buraco encontrou o velho sábio, que não era velho, mas era sábio. “Você quer demais, você precisa de menos” sussurrava a voz do velho.

Então ela entendeu. Decidiu que já que ali estava ia começar a organizar. Levou dias, meses, anos para por tudo no lugar. A cada coisa que jogava sentia uma dor no peito e depois um alívio tremendo. Jogou tudo fora.

Ficou impressionada com quanta coisa conseguiu coletar naquele tempo, eram armários de recordações esquecidas, gavetas de pequenas felicidades deixadas de lado, mas o que mais a assustou foi a quantidade de pessoas que encontrou perdida em seu buraco. Pessoas que ela amou e que se dedicou, que doou seu tempo, sua energia. Ela tentava fazer com que as pessoas a amassem da mesma forma que ela amava, ela tentava conquistar a admiração e o tempo daquelas pessoas. Ela tentava comprar felicidade e paz com qualquer coisa. Ela tentava misturar sua vida aos personagens dos filmes e fazer da sua vida uma música. Ela tentava, e tentava e tentava.

Era disso que seu buraco era feito: de tentativas vãs que não resultavam em nada a não ser em abismo. Foi aí que ela decidiu não tentar mais. “Se for para gostar vai gostar assim. Do meu jeito confuso”

Entre as montanhas de lixo se pegou com um papel e um lápis na mão e então escreveu sobre aquela imensidão. As palavras escorriam como areia na ampulheta, escreveu linhas, páginas, folhas. Palavras que não se acabavam mais, e ela percebeu que o que faltava era sua alma e que sua alma era feita de palavras. O vazio foi sendo preenchido, letra após letra. Ora doces, ora amargas, embriagadas de saudade.

Quando se deu conta já estava na superfície, de volta como sempre foi. Mas agora sem o buraco no peito.  Quando ela andava pelas ruas sorria sem perceber. Alguns a achavam louca, e ela nem ligava. Porque o que importava era que ela se sentia completa. Desde então ela não tinha mais nada, mas ela nunca mais foi igual. Até que decidiu: “Isso aqui já não faz parte de mim”. Despiu-se e se deixou levar pelo vento.

Há quem diga que ainda a encontra voando sem destino, mas que ela nunca pareceu tão feliz. Ela só precisava de menos.

bruna

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3 Respostas para "Ela só precisava de menos"

  • Romeo
    27 de maio de 2015 - 09:09 Responder

    Caraca! andou lendo pensamentos??Faz tempo que ne3o dava as caras por aqui, e qundao aparee7o eis a surpresa: a dona do blog resolveu tambe9m aderir a arte da videancia e detalhou em seu post exatemente o que estou sentindo. =)Ne3o tenho mais o que dizer, Fran!

    • a terapia de alice
      5 de junho de 2015 - 18:31 Responder

      Que bom que voltou, Fran!! Esse texto é realmente especial, foi escrito por uma de nossas leitoras. Continue com a gente, beijos

  • Gabriela
    19 de julho de 2015 - 15:34 Responder

    Texto Fantástico! Me trouxe muita inspiração, parecia que me identificava e conversava com as palavras que você escreveu! Parabéns!!

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